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Tuesday, November 25

Quase dezembro

Eu sei que ainda ta cedo pra olhar pra tras e fazer um balanco do que aconteceu em 2008. Mas as decoracoes de Natal por aqui me colocaram no clima. Papai Noel chegou, galera, e quando a gente perceber ja teremos pulado as benditas sete ondas, que todo ano prometem um ano melhor que o anterior.

Eu nao sou uma pessoa que pede. Eu agradeco. Se quero algo, eu mesma corro atras. Portanto, sinto informar que esse lance de ano novo pra mim e' muito comercial e pouco verdadeiro. Por outro lado, acho realmente lindo o modo como a tradicao contagia todo mundo, que veste branco, come lentilha e guarda a folha de loro na carteira. E' uma epoca em que todos creem que as coisas podem melhorar e, na minha opiniao, ter esperanca - mesmo que por apenas um dia -, e' demasiadamente importante.

Meu 2008 foi turbulento. Nao de forma ruim - ate porque meu otimismo nao me deixaria reclamar de nada do que vivi esse ano. Ruim e' quando a gente perde nossa casa pra uma enchente, ruim e' quando alguem proximo falece, ruim e' quando uma doenca nos pega de surpresa, quando encontramos com a violencia, quando nao temos dinheiro o suficiente pra comprar um pao com manteiga pros nossos filhos. Isso e' ruim. E eu nao tenho motivos pra reclamacoes, portanto tenho certeza de que minha vida e' boa. Minha vida e' otima e os acontecimentos de 2008 podem ter me deixado um pouco pra baixo algumas vezes. Talvez tenham me feito ficar nervosa por nao saber por onde comecar, me dado preocupacoes e ate uma nova ruga ou fio de cabelo branco.

Os acontecimentos de a008 foram tantos, que me faz bem poder olhar pra tras e ver que o que achei que nao fosse resolver, foi resolvido; o que achei que fosse complicado demais, mostrou-se facil; o que acreditei ser o fim tornou-se um comeco mais forte.

Dois mil e oito começou com um sentimento inusitado, passou pra uma discussao feia, mas sincera. Chorei como havia muito que nao chorava, tive duvidas, arrisquei.

Esse ano tambem me mostrou que a pessoa que tenho hoje ao meu lado e’ mais importante pra mim do que eu inicialmente imaginava. Aprendi a dividir e a pensar de forma menos egoista. Percebi que tenho comigo ha mais de quatro anos uma pessoa com a qual quero dividir minha vida pra sempre – ou enquanto formos felizes e realizados em todos os sentidos.

Em 2008 abri os olhos, cai e levantei, ajudei quem poderia e tenho a consciencia de que talvez devesse ter sido mais paciente e menos exigente em algumas situacoes. Fiz mais trabalho voluntarios e adquiri uma nova paixao pelo ato tao simples e significativo. Me alimentei melhor, mas tambem nao deixei de lado os prazeres caloricos. Viajei pouco, mas viajei bem. Tomei decisoes, me aproximei de pessoas que se mostraram proximas, cortei uma ou outra que nao me fazia mais assim tao bem.

Mais pra metade do ano, comecei a me despedir de pessoas queridas que deixaram Dublin e partiram pra novas etapas. Comi mais em restaurantes e tomei mais vinho. Recebi uma surpresa maravilhosa em outubro. A unica na minha vida que eu nao descobri que aconteceria. Perdi um emprego, mas logo encontrei outro. Conheci novas pessoas. Fiquei nervosa com tantas mudancas repentinas, mas agora vejo que mudanças sao necessarias pro nosso crescimento.

Hoje olho pra tras e como sou grata! Ate mesmo pelas dificuldades, pelos imprevistos, por aquilo me eu fez chorar. Amadureci, ganhei mais um ano, recebi um email do meu pai no meu aniversario para o qual nao tenho palavras – a coisa mais linda que ja li na vida. Pra mim. So’ pra mim [sim, aqui eu ainda posso ser um pouquinho egoista e fazer inveja...].

Sao coisas assim que tornam meu ano feliz, valido e colorido. Pensar no 2009 me assusta um pouco. Os planos são diversos e grandes tambem. Passos talvez maiores dos que tenho dado ate entao. Ou nao... talvez sejam apenas passos que a gente decide dar. Ao inves de continuar na reta, talvez seja interessante virar a esquerda, entrar numa rua desconhecida e arriscar um pouco. A falta de sinalizacao talvez atrapalhe, mas nao me fara nunca estacionar. E, se a rua for sem saida, não tem problema. A gente da meia volta e procura um outro destino...



Tuesday, October 28

Inocencia de fases

E entao ela caminhava. Triste - mas nunca de cabeca baixa. E imaginava se todas as conquistas que um dia significaram tanto nao eram apenas acontecimentos para abrilhantar um dia fosco. Daqueles que um dia se apagam e nao servem para nada alem de brevemente iluminar um caminho.

Ela caminhava. Sem olhar para os lados, mas sempre com a cabeca erguida. Sem medo da chuva que estava por vir, sem pensar no frio que poderia sentir apos o anoitecer. Ela caminhava e imaginava se o que um dia a fez tao feliz tornara-se agora sem importancia. Ou se os acontecimentos passados foram, sim, importantes na epoca, mas agora parecem pequenos diante dos degraus que precisa subir.

Ela caminhava e imaginava se era ingenua demais, achando graca em pequenas coisas. Coisas que ninguem ve. Um aceno de mao de uma crianca, os ovos postos de um cisne, o filhote de gato que corre sem rumo, a menina com rosto pintado, o arco-iris.

Ela caminhava e cansou. Nao parou. Mas dessa vez, baixou a cabeca e imaginou se estava errada.

Wednesday, August 13

`As vezes gosto do medo

Pensando bem, acredito `as vezes gostar um pouquinho do medo que sinto de situacoes particulares. Foi assim quando decidi furar meu nariz, foi assim quando fiz minha primeira tatuagem, foi assim quando mergulhei em junho passado.

Por ser muito ansiosa, sinto que necessito modificar minha rotina mais do que o considerado normal para a maioria das pessoas. Talvez a ansiedade excessiva seja a grande culpada, a que me convenceu, a que deixou minha mae de cabelo em pe', quando fiz a primeira tatuagem. Isso foi quando eu tinha 15. Quase 16. Hoje, aos 24, conto oito ao todo.

A historia do piercing nao foge dos padroes. Ja em Dublin, senti que algo faltava. Precisava urgentemente mudar e, apesar do medo da dor e da possivel inflamacao bem no meio da fuca, furei. Foi tudo num impulso. Na verdade, uma segunda tentativa. A primeira vez em que a coragem deu as caras, nao durou muito tempo. Fui, me informei, escolhi a joia. Achei, entao, melhor voltar outro dia, com a desculpa de que estava sem me alimentar desde cedo - um dos requisitos dos profissionais e' que a pessoa tenha feito uma refeicao completa ao menos duas horas antes do 'ato'.

Fui mais decidida na segunda vez, em meados do junho de um ano atras, apesar de a coragem tentar incessantemente escapar por qualquer brecha que achasse possivel. Escolhi a joia, tirei o dinheiro, comi um sanduiche no Subway ao lado. Nao tinha desculpa. Alimentada, endinheirada, decidida - e com o rabo entre as pernas - arrisquei. Era incrivel a fila de pessoas esperando a vez, muitas provavelmente com o mesmo sentimento que o meu. Fui. Finalmente. Nao foi nada perto do que eu esperava. Nem dor, nem enjoo. Somente satisfacao e uma joia fofa do lado esquerdo do nariz cheio de cravos.

O mergulho em Santorini, na Grecia, foi o mais recente dos desafios. Nem o peso do equipamento, nem o balanco do barco, me tiraram a concentracao. Foi entrar na agua pra sentir que mergulhar nao seria apenas um prazer, mas definitivamente uma conquista. Talvez uma das maiores dos ultimos tempos. A sensacao de claustrofobia era de tirar o folego [negativamente, logico]. E ali, em meio a um oceano lindo e gelado, folego era o que eu mais precisava. Foi com a ajuda do fotografo mergulhador que venci o medo e, aos poucos, me acostumei com o peso e o funcionamento de todos os aparelhos sobre meus meros metro e 58 centimetros.

De inicio, descemos apenas seis metros, para praticar tudo o que haviamos escutado pouco antes de entrar na agua. O frio nao tirou minha concentracao e tudo me pareceu relativamente facil e seguro. Quando subimos, o balanco do barco foi mais um empecilho. O enjoo era dos piores, mas nada saiu do meu estomago - embora eu tivesse que fazer um controle mental poderoso para controlar o movimento involuntario do mesmo. Pensei, entao, que nao fosse capaz de fazer o segundo mergulho - 12 metros.

Seria demais novamente pular do barco e controlar meu peso sobre a agua, respirar pela boca e ter a impressao de que, a qualquer momento, um reflexo me faria puxar o ar pelo nariz. Foi esse o momento em que descobri gostar de desafios. Mais do que eu imaginava. Queria continuar e finalizar meu plano. Nao queria desistir.

Ignorei, entao, o enjoo persistente e a calma debaixo d'agua foi como uma recompensa bem-vinda.


A felicidade apos cada conquista, por menor e mais boba que pareca, e' indescritivel. Sempre foi. Sempre sera'.

 
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