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Tenho preguica de contar historias. Tanto as que aconteceram com os outros, quanto minhas proprias experiencias. Sabe quando o povo ta' curioso pra saber como terminou uma festa, como foi a viagem, como estava no restaurante? Sou peeeessima pra responder quaisquer variedades da mesma pergunta. Nao e' nem pelo fato de eu ser reservada e nao querer que todo mundo saiba o que eu comi no almoco ou o tamanho do meu bikini. Acho que e' mais por me achar chata demais quando tento relatar algo pra alguem. Nem deveria confessar tal defeito, uma vez que escolhi jornalismo pra pagar minhas contas. E, se ja' e' complicado ser bem paga sendo talentosa, imagina uma jornalista que nao sabe contar uma historia.
Talvez seja essa coisa de ser um pouco insegura. Nao, na verdade esses tempos descobri um aspecto importante sobre mim mesma: nao gosto de ser o centro das atencoes. E contadores de historias tem sempre todas as fac es voltadas a eles e, independente do que veem na plateia, precisam manter a concentracao e terminar o tell-tale. Nao sou engracada, nem tenho muitos 'causos' interessantes pra prender a atencao do ouvinte. Talvez por isso desde pequena sempre preferi escutar a falar. Sou quieta mesmo, a nao ser naqueles dias inusitados em que falo besteira e rio de mim mesma ate' alguem pedir pra eu, por favor, calar a boca.
Ja' fiz teatro, outra atividade que pede que voce relate os fatos do roteiro da forma que lhe for imposta pelo diretor, e adorava. Talvez pela iluminacao toda do palco impedir que eu visse as expressoes do publico, sentado avido nas poltronas, esperando por algo que surpreendesse e tirasse o folego. Vou adorar ler pros meus filhos antes deles dormirem, trabalhar como jornalista pra contar historias de outras pessoas e ate' um dia escrever meu(s) best-seller(s). Mas pra eu contar minha propria historia, so' mesmo atraves da escrita ou quando a escuridao nao me deixar observar aqueles que me ouvem.
Credito da Imagem.

Entao... em abril faz tres anos que estou por aqui e acredito ja estar na hora de comentar um pouco sobre os meus empregos ate entao. Ate o final do ano passado tudo era mais ou menos estavel.
Na minha primeira semana na Irlanda, consegui um emprego num lugar chamado Donnybrook Fair. E' uma loja de conveniencia, mas diferente das que temos no Brasil. La, pode-se encontrar sanduiches feitos na hora ou embalados no dia, cafe e cha' to go, sopa em horario de almoco, porridge no cafe da manha e todos os outros produtos que usamos no dia-a-dia. Como se fosse um mini-mercado de elite, com saladas preparadas no dia, pratos em embalagens que podem ser usadas em fornos ou microondas, frutas, carnes e vegetais que devem estar perfeitos o tempo inteiro.
Comecei la como caixa e la estou ate hoje. A diferenca e' que meu emprego full-time por la' durou uma semana. Depois logo arrumei um trabalho numa agencia de publicidade, onde trabalhei como secretaria e recepcionista por dois anos e meio e so' mesmo sai' porque o local fechou em agosto de 2008. A partir de entao, ficava durante a semana na agencia e, nos finais de semana, no Donnybrook Fair.
Meus primeiros seis meses de Irlanda nao tiveram dias de folga. Trabalhei de domingo 'a domingo e sempre gostei muito dos dois lugares onde trabalhava. A visita dos meus pais e da minha irma em outubro de 2006 me fizeram desistir dos meus finais de semana de trabalho e manter apenas o emprego da agencia [que se chamava Grey Helme e Mediacom].
De tao acostumada a estar ocupada o tempo inteiro, confesso que foi dificil me acostumar com os finais de semana livres. Eu nao paro em casa. E nao parar em casa, especialmente aos sabados e domingos, e' sinonimo de gasto de dinheiro [quase nunca investimento... quase sempre desperdicio]. Foi entao que, em abril do ano passado, recomecei no Donnybrook, mas dessa vez, apenas aos domingos. Assim tenho ainda os sabados para bater perna, dormir ate mais tarde e sair com os amigos.
Como havia comentado antes, em agosto a Grey Helme fechou as portas. Nao apenas para mim, mas pra todo mundo. Era o inicio da recessao, da crise economica, que hoje afeta o mundo inteiro de forma mais intensa e deixa os irlandeses [e todos os que moram por aqui] de cabelo em pe'. A agencia fechou no ultimo dia de agosto e, no primeiro dia util de setembro, ja comecei a trabalhar numa outra agencia publicitaria, a Mindshare & DDFH&B. La' fiquei de setembro a dezembro do ano passado e so' sai' mesmo por ja ter marcado a viagem ao Brasil, que duraria um mes. Na minha visao, era injusto viajar por rinta dias, apos apenas tres meses empregada. Ainda mais por estar cobrindo licenca maternidade da Louise.
Uma coisa e' certa em meus empregos por aqui: eu sempre calho de arrumar aqueles em que, se a gente precisa faltar, e' um problemao, porque nao tem mais ninguem executando a mesma funcao. Na Mindshare eu trabalhava no setor financeiro, mais precisamente coletando anuncios dos clientes da agencia em jornais e revistas locais. O trabalho era um pouco estressante, mas todo mundo la' me tratava muito bem e me apertou o coracao virar um dia e dizer ao Michael O'Reilly que eu teria de abandonar o posto devido a ferias.
Uma semana apos minha volta do Brasil, comecei no Donnybrook Fair [aquele lugar onde trabalho de caixa aos domingos]. Mas dessa vez comecei na recepcao da matriz. La' faco muito mais do que atender telefone e receber clientes. Sou assistente pessoal do Joe Doyle [o dono da rede] e minha primeira semana la' me fez perder todos os fios de cabelo. Agora, na minha segunda semana, comeco a me acostumar melhor com o jeito das pessoas e tambem as atividades. Ate que gosto. Principalmente pela correria o tempo todo. Tambem auxilio na parte de assessoria de imprensa, mas isso e' apenas um comeco. Nao tenho ideia de como vai ser daqui pra frente. Aos domingos, continuo de caixa numa das filiais, pertinho de casa.
Sempre gostei das oportunidades que tive por aqui e realmente me sinto privilegiada por conseguir empregos em locais bacanas, com pessoas legais e prestativas. A unica coisa que pega no meu calo e' o fato de, mesmo apos muito tentar, nao conseguir ingressar da area jornalistica irlandesa.
Ja tive algumas materias publicadas em jornais locais e a experiencia sempre vale a pena. Mas nao e' o mesmo que estar em contato com esse povo louco diariamente, escrever diariamente, entrevistar pessoas diferentes a cada materia e nunca ter uma rotina previsivel. Sinto falta disso.
Sinto falta de postar mais frequentemente por aqui, agora que nao tenho mordomia no emprego. O controle em relacao ao uso da Internet e celular por la e' tao grande, que prefiro nao me arriscar [especialmente nao apos o puxao de orelha que levei de uma gerente]. Entao agora mantenho-me ocupada com nada mais que coisas relacionadas ao trabalho e confesso que, muitas vezes quando chego em casa, a preguica e' tao grande que nao me deixa ligar o computador para manter o blog atualizado.
Aproveito o ensejo [e impressiono-me com o tamanho deste post!] para deixar aqui registrado que voltarei em breve para contar mais sobre meus trabalhos voluntarios e sobre os planos para os proximos meses. Tem coisa pra caramba pra contar. Preciso apenas me concentrar e ter vergonha na cara. O blog iniciou quando vim pra ca e nao quero deixar nenhum detalhe escapar em relacao a minha experiencia na terra fria. Por isso, talvez, alguns dos posts nao mostrem-se tao interessantes a maioria dos que me visitam, mas para mim sao muito importantes e marcantes. E serao mais ainda quando, daqui alguns anos, eu voltar a este endereco e resolver dar espaco a nostalgia e relembrar todos esses detalhes que, provavelmente, logo esquecerei.