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Friday, October 22

Home is where your heart is!

Cara, como é BOM ter o próprio canto. Não que meu canto seja próprio - é alugado - mas vocês entenderam. A carinhosamente apelidada 'caixa de fósforos' é bem menor que a casa da sogra, tem bem menos isolação sonora, me faz gastar muito mais do meu orçamento e ter que controlar freneticamente os centavos ganhos. Por outro lado, é onde eu tive a liberdade de personalizar e colocar ali apenas o que eu queria. Meu cheiro, minhas cores, minha organização, minhas neuras. E isso é que vale.

Já escutei o vizinho de baixo transando com uma escandalosa, escutei vizinho batendo janela, escutei vizinho recebendo visita, escutei cãozinho de estimação latindo, precisei de uma dose extra de paciência pra conseguir tirar o carro da garagem apertada. Mas é um lugar que eu aprendi a amar. Há menos de duas semanas me mudei e trouxe só o essencial (namorado included!) e toda vez que entro lá, que destranco a porta, que piso lá dentro, é tão... mágico! Tudo me agrada, tudo me faz sentir bem, a cama me agarra como se nunca fosse me deixar sair, as cores me animam, o chuveiro me chama, me chama, me chama.

Delícia!

Aí, pra atualizar o que ocorreu nos últimos dias, que não tem nada a ver com o fato de eu estar in-love pela 'caixa de fósforos'.

. ontem soube que perdi meu padrinho, a quem carinhosamente chamávamos de Chico (ou Chicão). Soube tarde, não consegui comparecer ao velório / enterro - que era em outra cidade. O que fiz questão de fazer no meu horário de almoço foi ir até um lugar calmo (a Catedral, embora eu não seja religiosa in any way). Apesar de chegar lá e perceber que uma missa estava em andamento, fiz o que pude para me concentrar e mandar a ele muita luz e muito amor. Também pedi desculpas por não tê-lo visto com mais frequência.

. assisti aos dois filmes no cinema: 'Tropa de Elite 2' e 'Comer, Rezar, Amar'. Fui surpreendida por ambos. Bom, na verdade o da Julia Roberts não me surpreendeu, pois eu sabia que me cativaria por dois motivos óbvios. 1) li o livro e amei; 2) o fato de ter Julia Roberts no elenco já é ponto positivo pra mim. Sobre o 'Tropa', confesso que ODEIO as partes de tortura e violência no geral, mas que os caras criticaram abertamente o governo, a política, Brasília, as milícias e o povo em geral - isso foi de tirar o chapéu e aplaudir em pé.

. ainda não comentei com vocês que neste um ano de volta ao Brasil conquistei 10 amigas, né?! Preciso voltar e descrever o fato com calma. Mas é bom demais!

. mas um fim de semana chegando. Gente, os dias encurtaram?

. dislexia simplesmente aparece?


Monday, August 10

Diario da Despedida - semana I

Com esse papo todo de ir embora e a agua comecando a bater na bunda, decidi fazer anotacoes sobre meus sentimentos relacionados 'a despedida de Dublin e retorno ao sul do Brasil. Toda semana pretendo postar um update da semana anterior, com direito a ataques sem sentido, coracao apertado e as duvidas que assombram a gente quando alguma mudanca brusca esta' prestes a acontecer.


Como esse e' o primeiro post da serie, comecei apenas a notar meu comportamento anormal desde a ultima quinta-feira, 6 de agosto. Aqui vao os breves relatos dos ultimos quatro dias:


Quinta, 6 de agosto
. Comecei a pensar num album dedicado 'a Irlanda, como fotos desde o primeiro ano aqui, ate' a despedida.
. Pesquisei umas frases e uns textos de escritores depressivos e que sabem bem expressar os sentimentos, como Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Ja' colei alguns no Outlook pra citacoes posteriores.
. O sentimento bateu meio forte depois do almoco. Ja' comecei a pensar em quando levar a maquina fotografica pra registrar meus momentos com a Una [a velhinha que visito toda semana] e com o pessoal do trabalho.
. Comprei vinte cartoes de "Thank You", os quais pretendo enviar antes de voltar 'as pessoas que foram importantes pra mim durante esses mais de tres anos por aqui.


Sexta, 7 de agosto
. Quando vi, ja' estava a pesquisar musicas relacionadas 'a despedidas.
. Entreguei o curriculo de uma amiga como sugestao pra me substituir aqui na agencia.
. Vi que vai ter show da Lilly Allen aqui em dezembro e decidi nao olhar mais anuncio nenhum das atividades culturais. E' como tirar doce de crianca e isso doi!
. Tenho flashs de locais no Brasil pelos quais passava caminhando na ida ao trabalho, na volta do mercado, a caminho da faculdade. Essas ruas nao tem significado nenhum pra mim. Ainda e' um misterio o porque me veem 'a mente.


Sabado, 8 de agosto
. Fui numa festa de comemoracao do casamento civil gay do meu professor, Shane, com o Jose. Nao pude deixar de pensar se esse seria o ultimo encontro antes da minha partida.
. Fiquei ao mesmo tempo lisonjeada a triste quando algumas pessoas na festa comentaram sobre o meu sotaque irlandes, que adquiri nesses tres anos aqui. Como vai ser de volta no Brasil? Vou perder o sotaque? Esquecer o ingles?
. Percebi que tenho milhares de cremes hidratantes em casa. Ficou a sensacao de ter que usa-los todos antes de ir por dois motivos: a) nao quero ocupar minha mala com eles. Espaco e' luxo na volta definitiva; b) tambem nao quero me livrar deles. Resta-me, entao, me lambuzar 50 vezes ao dia.


Domingo, 9 de agosto
. Dei o aviso no Donnybrook, o lugar onde trabalho aos domingos, dizendo que so' tenho mais dois finais de semana por la'.
. E' dificil ver a expressao no rosto das pessoas quando voce diz que vai embora. Alguns olhares dizem que pensaram que voce nao iria nunca. Alguns expressam a falta que vao sentir de voce, enquanto outros nao acreditam pois sabem o quanto voce gosta de morar em Dublin.
. Levei a maquina fotografica pra registrar alguns momentos.
. Doeu escutar da Isa: "Olha, fim de semana que vem eu to de folga, entao capaz da gente nao se ver. Nao vai embora sem dar tchau, hein?"
. Separei algumas roupas que deixarei por aqui.
. Ja' senti saudades de algumas pessoas.



Segunda-feira que vem posto sobre as loucuras dessa semana. Espero menos drama e mais diversao, menos sofrimento antecipado e mais sensacao de ter que curtir ate' nao poder mais :)








Credito da Imagem.

Wednesday, July 15

Sozinha nao!

Ontem tive uma prova incrivel de amor e amizade. Nao que amigos e dignissimo precisem provar algo pra mim. "Era provar pra todo mundo que eu nao precisava provar nada pra ninguem", como ja' dizia Renato Russo.


Uns posts atras comentei sobre as amizades na Irlanda e em como parecemos nos apegar mais facilmente em terras estrangeiras. Talvez pelo fato de passarmos todos pelos mesmo processos, por estarmos todos afastados da familia e amizades antigas, por sofrermos os mesmos tipos de saudades e nostalgias, e desejos e ideais.


No domingo me baixou o santo 'ninguem me ama, ninguem me quer'. Chorei pelos cantos, me senti sozinha mesmo rodeada de pessoas bacanas, fiz um dramalhao. Normal, ne? Eu acho, pelo menos. Faz parte 'as vezes nos sentirmos tristes sem motivo, sozinhos mesmo acompanhados, choroes mesmo felizes, sensiveis mesmo com aquela expressao seria no rosto. Nao quero fazer propaganda, mas meu namorado e' a coisa mais linda desse mundo. Como sempre, me apoiou e deu colo, emprestou ouvidos, enxugou lagrimas e compreendeu como so' ele consegue.


Na terca marcou comigo um jantar cujo local era surpresa. "So' pra gente", disse ele. Nos encontramos e fomos juntos ate' um pub em Ringsend, 'a beira do canal, com vista de tirar o folego. La', me deparei com pessoas maravilhosas que fazem parte do meu dia-a-dia em Dublin. Gabi, Ro, Boni, Ricca, Dani, Sam e Shai. O garcom me deixou de cobrar uma taca de vinho quando alguem inventou que era meu aniversario. Conversei com um e outro, ainda surpresa com a presenca de todos e com a atitude do Vi. "Viu como voce tem amigos? Como nao ta' sozinha?" Juro que quase chorei e hoje, enquanto escrevo este post, me sinto ainda mais sensivel.


Quando deu meia-noite, com o pub ja' quase vazio, cantamos parabens 'a verdadeira aniversariante: Sam. Hoje e' aniversario dela, mas ontem a festa foi minha. A festa, na verdade, foi de todos. Dois pularam no canal antes de ir pra casa, uma me pediu ajuda pra assuntos sentimentais, outra declarou a admiracao por nossa amizade, a prima tentou convencer o garcon de servir mais bebidas - mesmo com o bar ja' fechado, uma feijoada foi marcada pro fim de semana - e ninguem se importou de marcar o reencontro mesmo apos um sabado que sera' de trabalho e um domingo que nao nos deixa acordar tarde.


Ninguem se importou em marcar pra comer feijao num sabado a noite. Ninguem quis saber se a digestao seria bem feita ou se dormiriamos todos o suficiente pra acordarmos dispostos no dia seguinte. Eu trabalho no domingo. 'As oito da manha. Mas... e dai? Todos os presentes na noite de ontem estavam la' pura e simplesmente pra me mostrar que sao de carne e osso e que sao meus amigos, que nao estou sozinha mesmo quando sinto o contrario. Todos deixaram suas casas e seus trabalhos numa terca-feira, semana ainda mal-iniciada, pra atender ao pedido do Vi - que queria me ver sorrindo. Todos reservaram uma partezinha do orcamento pra comprar umas pints no pub, mesmo sendo mais barato beber em casa.


O dia inteiro choveu. Enquanto estavamos la', porem, o sol apareceu pra nos proporcionar um anoitecer maravilhoso.








Credito da Imagem.

Monday, June 29

Onde Ir




Só sei que o mundo vai de lá prá cá
Andando por ali, por acolá
Querendo ver o sol que não chega
Querendo ter alguém que não vem.




'Voce foi um dos presentes que a Irlanda me deu.'


Ontem escutei isso como a despedida de um amigo que fiz em Dublin. Mais um foi embora, mais um retornou, mais um que quer tentar o Brasil com olhos agora amadurecidos e coracao mudado.


Isso me fez perceber o quanto as relacoes sao fortes por aqui. Nao sei se por estarmos todos geograficamente distantes da familia e de amigos de longa data; nao sei se por partilharmos as mesmas aventuras; se pelo amadurecimento ser causado pelos mesmos motivos; se por vivenciarmos as mesmas oportunidades; ou pelo modo como aprendemos a viver sem preconceitos, sem a necessidade do fashion, sem a vulgaridade do verao.


Estou na Irlanda ha' mais de tres anos, mas nao faz muito que precisei me acostumar a dizer adeus a verdadeiros amigos que conquistei aqui desde abril de 2004. No inicio, muitos voltaram. Mas nenhum que fizesse parte do meu circulo social, nenhum que escutou minha lamurias, nenhum que tenha criado a necessidade de um encontro semanal pra uma jogar conversa fora, nenhum que tenha se tornado meu companheiro pra todos os shows, musicais, pecas teatrais, eventos esportivos e festinhas diversas, nenhum que tenha sido meu parceiro de aula e estudado comigo pros exames de Cambridge.


Posso contar nos dedos o numero de pessoas especiais que aqui me abandonaram - ate' que chegue a minha hora de abandonar outros tantos. Foi a Amanda, foi a Dani, foram o Ro e a Re, foram a Debora e o Helio, foi o Hugo.


Como e' forte o laco que criamos com algumas pessoas aqui! A impressao que tenho e' a de que no Brasil precisamos de uma vida inteira pra conhecer grandes amigos. Ninguem confia no outro da noite pro dia, e' dificil sair e se apegar, complicado conhecer e se entregar. Aqui, nao. Aqui somos todos iguais e corremos todos atras. Vivemos, sim, de formas diferentes. As oportunidades que me foram dadas sao diferentes das chances de outros imigrantes. Ainda assim, somos a tripulacao do mesmo barco. Quando o mar ta' bravo, sofremos todos e, juntos, lutamos para que ninguem se prejudique. Os enjoos batem, sim, e nem sempre as opinioes sao as mesmas. Saem faiscas dessas relacoes, assim como criam-se momentos felizes por qualquer motivo, grande ou pequeno.


A gente aqui se apega demais. E isso so' e' errado quando percebemos que talvez o tamanho do nosso proprio pais - e os precos para ir de um lado a outro - seja a unica barreira que vai deixar a saudade ainda maior, senao eterna.







Credito da Imagem.
 
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