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Thursday, January 29

O le-re le-re aqui

Entao... em abril faz tres anos que estou por aqui e acredito ja estar na hora de comentar um pouco sobre os meus empregos ate entao. Ate o final do ano passado tudo era mais ou menos estavel.

Na minha primeira semana na Irlanda, consegui um emprego num lugar chamado Donnybrook Fair. E' uma loja de conveniencia, mas diferente das que temos no Brasil. La, pode-se encontrar sanduiches feitos na hora ou embalados no dia, cafe e cha' to go, sopa em horario de almoco, porridge no cafe da manha e todos os outros produtos que usamos no dia-a-dia. Como se fosse um mini-mercado de elite, com saladas preparadas no dia, pratos em embalagens que podem ser usadas em fornos ou microondas, frutas, carnes e vegetais que devem estar perfeitos o tempo inteiro.

Comecei la como caixa e la estou ate hoje. A diferenca e' que meu emprego full-time por la' durou uma semana. Depois logo arrumei um trabalho numa agencia de publicidade, onde trabalhei como secretaria e recepcionista por dois anos e meio e so' mesmo sai' porque o local fechou em agosto de 2008. A partir de entao, ficava durante a semana na agencia e, nos finais de semana, no Donnybrook Fair.

Meus primeiros seis meses de Irlanda nao tiveram dias de folga. Trabalhei de domingo 'a domingo e sempre gostei muito dos dois lugares onde trabalhava. A visita dos meus pais e da minha irma em outubro de 2006 me fizeram desistir dos meus finais de semana de trabalho e manter apenas o emprego da agencia [que se chamava Grey Helme e Mediacom].

De tao acostumada a estar ocupada o tempo inteiro, confesso que foi dificil me acostumar com os finais de semana livres. Eu nao paro em casa. E nao parar em casa, especialmente aos sabados e domingos, e' sinonimo de gasto de dinheiro [quase nunca investimento... quase sempre desperdicio]. Foi entao que, em abril do ano passado, recomecei no Donnybrook, mas dessa vez, apenas aos domingos. Assim tenho ainda os sabados para bater perna, dormir ate mais tarde e sair com os amigos.

Como havia comentado antes, em agosto a Grey Helme fechou as portas. Nao apenas para mim, mas pra todo mundo. Era o inicio da recessao, da crise economica, que hoje afeta o mundo inteiro de forma mais intensa e deixa os irlandeses [e todos os que moram por aqui] de cabelo em pe'. A agencia fechou no ultimo dia de agosto e, no primeiro dia util de setembro, ja comecei a trabalhar numa outra agencia publicitaria, a Mindshare & DDFH&B. La' fiquei de setembro a dezembro do ano passado e so' sai' mesmo por ja ter marcado a viagem ao Brasil, que duraria um mes. Na minha visao, era injusto viajar por rinta dias, apos apenas tres meses empregada. Ainda mais por estar cobrindo licenca maternidade da Louise.

Uma coisa e' certa em meus empregos por aqui: eu sempre calho de arrumar aqueles em que, se a gente precisa faltar, e' um problemao, porque nao tem mais ninguem executando a mesma funcao. Na Mindshare eu trabalhava no setor financeiro, mais precisamente coletando anuncios dos clientes da agencia em jornais e revistas locais. O trabalho era um pouco estressante, mas todo mundo la' me tratava muito bem e me apertou o coracao virar um dia e dizer ao Michael O'Reilly que eu teria de abandonar o posto devido a ferias.

Uma semana apos minha volta do Brasil, comecei no Donnybrook Fair [aquele lugar onde trabalho de caixa aos domingos]. Mas dessa vez comecei na recepcao da matriz. La' faco muito mais do que atender telefone e receber clientes. Sou assistente pessoal do Joe Doyle [o dono da rede] e minha primeira semana la' me fez perder todos os fios de cabelo. Agora, na minha segunda semana, comeco a me acostumar melhor com o jeito das pessoas e tambem as atividades. Ate que gosto. Principalmente pela correria o tempo todo. Tambem auxilio na parte de assessoria de imprensa, mas isso e' apenas um comeco. Nao tenho ideia de como vai ser daqui pra frente. Aos domingos, continuo de caixa numa das filiais, pertinho de casa.

Sempre gostei das oportunidades que tive por aqui e realmente me sinto privilegiada por conseguir empregos em locais bacanas, com pessoas legais e prestativas. A unica coisa que pega no meu calo e' o fato de, mesmo apos muito tentar, nao conseguir ingressar da area jornalistica irlandesa.

Ja tive algumas materias publicadas em jornais locais e a experiencia sempre vale a pena. Mas nao e' o mesmo que estar em contato com esse povo louco diariamente, escrever diariamente, entrevistar pessoas diferentes a cada materia e nunca ter uma rotina previsivel. Sinto falta disso.

Sinto falta de postar mais frequentemente por aqui, agora que nao tenho mordomia no emprego. O controle em relacao ao uso da Internet e celular por la e' tao grande, que prefiro nao me arriscar [especialmente nao apos o puxao de orelha que levei de uma gerente]. Entao agora mantenho-me ocupada com nada mais que coisas relacionadas ao trabalho e confesso que, muitas vezes quando chego em casa, a preguica e' tao grande que nao me deixa ligar o computador para manter o blog atualizado.

Aproveito o ensejo [e impressiono-me com o tamanho deste post!] para deixar aqui registrado que voltarei em breve para contar mais sobre meus trabalhos voluntarios e sobre os planos para os proximos meses. Tem coisa pra caramba pra contar. Preciso apenas me concentrar e ter vergonha na cara. O blog iniciou quando vim pra ca e nao quero deixar nenhum detalhe escapar em relacao a minha experiencia na terra fria. Por isso, talvez, alguns dos posts nao mostrem-se tao interessantes a maioria dos que me visitam, mas para mim sao muito importantes e marcantes. E serao mais ainda quando, daqui alguns anos, eu voltar a este endereco e resolver dar espaco a nostalgia e relembrar todos esses detalhes que, provavelmente, logo esquecerei.

Monday, September 15

"Minha alegria, meu cansaco..."

Estou tao cansada desde que comecei no novo emprego que a minha cabeca anda uma desorganizacao so'. E' como se me dessem um dia com apenas 12 horas e eu tivesse que continuar com todas as atividades que geralmente faco em 24. Nao e' uma reclamacao. E' apenas um desabafo. Talvez um desabafo bom. Mas na correria. Ter tempo pra ler meus livros e' do que mais sinto falta. Geralmente chego em casa tao cansada, que mal consigo passar da decima pagina antes de cair no sono. Nao gosto de empacar em livro. Muito menos parar de ler na metade, embora alguns nao tenham me dado animo o suficiente pra continuar a virada das paginas.

Esses ultimos meses tambem foram premiados como "meses dos acontecimentos". Nunca vi tanta coisa acontecer tao rapido e em tao pouco tempo. Vieram a Kitchy, a Gabi (pra ficar), a Maira e o Marcelo. A agencia fechando, a procura por emprego, a ida 'a entrevistas, a mudanca de professores na escola, os festivais de teatro, a compra de ingressos, meu aniversario, os aniversarios em agosto, as festas, decisoes, o novo emprego, um dilema especifico, pagamentos, depositos, a volta as aulas, idas-extras ao banco, os artigos pro jornal, a tentativa pra ficar ruiva, a descoberta dos livros de fantasia e da agua de sabor, despedidas... Ahhhh!

Minha cabeca esta' a mil por hora e estava ainda pior uns dias atras. Mal vejo os que moram comigo, mal entro na sala e so' passo pela cozinha pra ir ao banheiro. Vou ao mercado no meu break do trabalho aos domingos, vou ao banco no horario de almoco, troco uma peca de roupa no caminho entre o trabalho e a escola. Nao penso mais muito. Quando leio, caio no sono. Tomo mais cafe, mas tambem como menos besteiras. Quando a gente tem tempo, a gente come mais. Pra preencher o espaco.

Minha rotina no dia-a-dia nao e' longa. Mas e' cansativa. Comeco no trabalho as 9h, o que me da quase uma hora a mais de sono se comparado ao meu emprego anterior. Tenho uma hora e quinze de almoco - que e' quando aproveito pra comer ou entao ir ao banco, 'a bilheteria, pra ler e responder meus emails e tentar me manter em contato com o povo. Trabalho depois ate 17h30, sem parar um minuto. As aulas comecam as 18h30. Levo meia-hora ate a escola. As vezes escapo pra olhar uma loja ou comprar alguma coisa pra comer. Fico na aula ate as 21h30 e chego em casa sao quase 22h. Tomo banho. Tento ler. Capoto ate o outro dia.

Aos domingos, trabalho das 8h as 18h. Sabados sao os dias que tenho de folga. Por incrivel que pareca, nao gosto de parar em casa. Invento algo pra fazer. Sair, caminhar, fazer algum trabalho voluntario, ler no parque, tomar um cafe, ir no teatro, tomar um vinho no pub, almocar num lugar diferente, gastar o dinheiro com coisas que eu nao necessariamente preciso. As ultimas visitas tornaram meus sabados mais agitados e cansativos. Com o sono atrasado, fico nervosa facil e sinto mais ainda a bagunca que esta' dentro da minha cabeca. Como se, apesar de toda a correria, algo ainda faltasse. Esse "algo" besta, como ler com frequencia, saber das noticias e parar de correr um pouco no meu horario de almoco. Conversar mais e olhar as coisas direito. Nao apenas passar o olho. Sair do automatico e sentir melhor.

Mas e' a correria que adoro. So' preciso aprender a controlar melhor o meu tempo, o meu sono, o meu cansaco.

Monday, September 1

Strange Transmissions

I could trip and I want you to know
Every time I think that I think I should go
I receive strange transmissions


Uma daquelas epocas estranhas. Nao ruins. Tambem nao podem ser descritas como tristes, desapegadas, vagais. Sao estranhas. De uns dias pra ca, e' como se todo esse agito frenetico simplesmente parasse. Como se, por um momento, o tempo congelasse e isso me fizesse sentir tudo o que a correria fez passar batido ou que meu coracao nao quis enxergar.

O fechamento da agencia, a despedida na ultima semana, o inicio de um novo emprego hoje pela manha, uma rotina diferente prestes a comecar. Ate se tornar banal, sem querer atencao, automatica. Esses ultimos dias trouxeram as lagrimas aprisionadas ha' tempos. Os anseios, receios, recheios. E' como se o mundo disesse: "Para! E pensa. E sinta um pouco tambem. Prove um bocado da sensacao, mesmo que a aparencia nao seja das mais convidativas. Deixe-se levar. Esqueca o futuro por um instante e traga as preocupacoes para o presente. Ou entao deixe que aparecam somente quando for a epoca. Por enquanto, viva."

Esses dias sao os dias sensiveis. Se acreditam em inferno-astral, pode ser tambem uma justificativa. O coracao mole, as vezes um pouco apertado. E, quando procuramos um motivo, e' dificil de encontrar. Como a chave do carro que a gente perde e recupera somente quando ja' temos uma reserva em maos. Talvez eu deva parar de revirar as dobras do cerebro em busca de uma causa pra um sentimento tao comum. Talvez eu deva apenas me deixar levar. Acredito precisar ser um pouco fraca vez ou outra. Deixar de ser a que cuida, pra ser cuidada. Deixar de parecer forte e mostrar um pouco da face que muitos nao veem.

Chorar. E, depois de um tempo, sorrir por estar feliz. Pelo choro ter ajudado no desabafo. Esvaziar o coracao, abrir espaco pra novos desafios e sensacoes. Por que o medo? Ne'?

Que coisa!

Thursday, August 28

DDFH&B

DDFH&B e' o nome da nova empresa. Do novo trabalho, onde estarao os novos colegas 'a partir de segunda-feira, 1º de setembro. Sim, eu sei que sair da rotina e mudar de vez em quando faz bem e muita gente gosta. Eu mesma sou o tipo de pessoa que precisa de mudancas vez ou outra. Como diz o ditado, "Variety is the spice of life". Precisamos variar, encontrar novos caminhos pra chegar no escritorio, comer algo mais apimentado e menos comum, assistir a um filme que nao e' necessariamente nosso estilo, ir a pe' ao inves de pagar a tarifa do onibus, comprar uma blusa verde, uma calca laranja.

Ta', exagerei!

O que quero dizer e' que a mudanca de emprego eu queria ha' algum tempo e o fato de a empresa onde eu trabalho desde que aqui cheguei estar fechando amanha foi apenas um empurrao para que eu concretizasse meu desejo. Por outro lado, algumas coisas me assustam um pouco. Sim, sou franga em algumas situacoes e me doi admitir. Na proxima segunda-feira chegarei, 'as 9h15 da manha, num lugar onde nao conheco ninguem. Pensarei na melhor rota para fazer e, quando colocar primeiramente meu pe' direito na recepcao, espero encontrar pessoas amigaveis e prestativas. Quero inovar, mas estar segura e me sentir bem-vinda. Quero variedade e desafios, mas nao quero colegas chatos e implicantes. Paciencia tem limites e, com o passar do tempo, percebo que a minha nao tem vida util muito longa.

Apesar do frio na barriga e da ansiedade que nunca me deixa caminhar sozinha, estou otimista. Positiva como sempre. E sei que mudar de emprego e me familiarizar com atividades e pessoas com faces estranhas sera' apenas mais um degrau. Mais um passo a frente, mais uma experiencia, mais um crescimento, uma ruga no rosto, um conteudo novo na cabeca.

 
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